Me recordo, mas já faz muito tempo, do momento em que eu comprimia meus lábios ao sentir o amargo do café e buscar através das minhas sensações palavras capazes de descrever a vida, de modo que eu, em minha insignificância, conseguisse exprimir, pelo espremer das palavras, ao menos, as coisas simples da vida, como o café.
Me queima a ponta dos dedos a xícara que exala o aroma e inunda o ambiente em aroma de aconchego.
Toca meus lábios e nesse dia frio espalha em vapor lembranças, soltas pelo ar. Aconchego... mas eu não posso, não posso, não consigo, não sei.
Não sei explicar o amargo e nem o quente que o sangue dos lábios esquenta e colore de vermelho.
Me falta vocabulário, me falta sensibilidade.
Ao tocar meus lábios o amargo dança sob minhas papilas, escorre pela lingua e desce. Desce quente pela minha garganta e esquenta meu pescoço.
Não sei como descrever o sabor risidual que sob minha lingua repousa, amargando o amargo, enquanto bebo. Bebo e meu lobo frontal se contorce na tentativa de através, da linguagem, colocar em sua boca o que em minha há.
Bebo e me arrepia o amargo.
Bebo.
Bebo e observo de perto a cor do café que me lembra: Castanho.
Bebo.
Bebo e sinto o esfriar do café tão rápido quanto o apagar da vida.
Eu bebo e sinto, mas pouco consigo exprimir do que sinto. Ainda me falta tanto, me falta tanto... Eu somente bebo.
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