sábado, 31 de janeiro de 2026

Café

Há muito tento deixar de lado a metalinguagem que me rompe as têmporas e suscita, por obséquio, o escárnio de falar de si mesma tal como faço agora.

Me recordo, mas já faz muito tempo, do momento em que eu comprimia meus lábios ao sentir o amargo do café e buscar através das minhas sensações palavras capazes de descrever a vida, de modo que eu, em minha insignificância, conseguisse exprimir, pelo espremer das palavras, ao menos, as coisas simples da vida, como o café.

Me queima a ponta dos dedos a xícara que exala o aroma e inunda o ambiente em aroma de aconchego.

Toca meus lábios e nesse dia frio espalha em vapor lembranças, soltas pelo ar. Aconchego... mas eu não posso, não posso, não consigo, não sei.

Não sei explicar o amargo e nem o quente que o sangue dos lábios esquenta e colore de vermelho.

Me falta vocabulário, me falta sensibilidade.

Ao tocar meus lábios o amargo dança sob minhas papilas, escorre pela lingua e desce. Desce quente pela minha garganta e esquenta meu pescoço. 

Não sei como descrever o sabor risidual  que sob minha lingua repousa, amargando o amargo, enquanto bebo. Bebo e meu lobo frontal se contorce na tentativa de através, da linguagem, colocar em sua boca o que em minha há.

Bebo e me arrepia o amargo. 

Bebo.

Bebo e observo de perto a cor do café que me lembra: Castanho.

Bebo.

Bebo e sinto o esfriar do café tão rápido quanto o apagar da vida.

Eu bebo e sinto, mas pouco consigo exprimir do que sinto. Ainda me falta tanto, me falta tanto... Eu somente bebo.


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