quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Rajada de sol

Sol, doravante só. 
Ora, pergunta-se, mas qual o problema do Sol? 
O enredo me pede que em prosa já não fale mais, portanto, se lhe apetece a alma explico, mas explico como quem quer exasperar a alma e não exatamente como quem quer se fazer entender. 
Frívolos motivos me fizeram com o Sol estar e junto a ele ficar. Afoito, confesso. Delirante, talvez, vide que o Sol sempre minha pele queimou e indubitavelmente aos bofetões invisiveis de suas rajadas, por mim, percebidas até mesmo em sombra, incandescentes me pelam a pele. 
Sim, era visto que não bastando minha alma minha pele também queria levar. 
Do Sol me fiz orfã e decidi me apartar, e desse parto digno de um bom epitáfio, nasceu pela morte meu novo eu.
Rajadas de Sol, aos bofetões, tentaram meu couro tirar e por mais que eu deteste o frio do inverno impetuoso, eu sei que o inverno me abraça e me acolhe. Me pergunto se é ali o meu lugar.
Seriam os dias nublados e semanas infindas, onde a fumaça sai quando abro a boca para dizer meu nome, meu lugar?
Sempre me achei quente demais para o inverno, mas ele me consome de modo que meu calor o inverno não consegue esquentar.
Fiz-me forte, forte para o verão aguentar. Ergo as mãos em uma tentativa de, ao menos, meu rosto livrar da, inevitével, queimadura solar. 
Rajadas de Sol.
Rajadas de Sol esbofeteando minha pele até que eu perceba que ao lado do Sol não é o meu lugar. 
Segui. 
Gotas de seiva nas árvores na áurora e a brisa fresca das 6 da manhã me fazem pensar e até mesmo acreditar que talvez seja possível, ao menos, negociar. 
Sol, por gentileza, teria como você e eu convivermos em relativa paz? 
45 minutos. 
45 minutos foi o que ele me deu.
Obrigada, eu acho.
Começou por minha bochechas, queimando como brasa viva, como quem é intimo de mim, intimo em me odiar. 
Eu desisto. 
Pegue suas rajadas e suma, suma daqui. 
Aos prantos e para onde correr, afinal? 
Existe beleza no caos, mas quem enxerga é quem observa a uma distância absurda, suficiente para contemplação e petrificação total dos sentimentos, dada pelo distanciamento. 
E nesse caos? Nesse caos existe a descamação da pele e não pela metamorfose bela de uma sublime transformação e sim, pela não piedade em o terrível Sol até as últimas consequências levando a sério a frase "arrancar o couro" 
Sarcástico.
Deveras insolente, Sol. 
Tanta gente por aí, vivendo de maneira harmoniosa contigo. As pessoas riem, Sol. Riem! Elas deitam e se deleitam em seu calor, e logo eu que, teoricamente, gosto de você sou tratada com tanta brutalidade. 
Não irei declarar guerra perpétua a ti. 
A ti? Um brinde. 
Que vença o melhor e você? Você venceu.
Faço as pazes com meu próprio jeito de ser, não foi decisão minha não suportar você. Inato a mim. Inato a ti. Não foi escolha de nenhum de nós. Continue brilhando.



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