domingo, 29 de janeiro de 2017

Já chegamos?


Descobri que a gente está viajando junto e preciso te falar algumas coisas.

A gente não está chegando.

É meio duro dizer isso, mas preciso começar por algum lugar, então, que tal perguntando quando foi que você começou a sonhar? Sonhar de projetar, planejar, você lembra?

As coisas eram inalcançáveis, não é mesmo? Espero que sim, por que meu plano era limpar o mundo. Eu imaginava as pessoas unidas esfregando as ruas, e entrando umas nas casas das outras para arrumar, sabia que isso me acalmava e ajudava dormir? Eu fui uma criança com TOC por limpeza. Não ria disso.

Quando fiquei um pouco mais velha queria construir um abrigo para animais, aprendi a calcular o valor da ração e dividir pela quantidade de gatos e cachorros, foi então que percebi que não conseguiria salvar todos os animais e fiquei muito triste por alguns dias, perguntando a meu pai se  tinha como mudar isso trabalhando muito, muito, muito – como somente uma criança sabe dizer-.

Não posso listar todos meus mirabolantes planos de criança mas posso afirmar que continuei sonhando e planejando como você.

Há um tempo atrás guardava umas roupas para usar no momento que eu estivesse com o corpo legal o suficiente. O corpo perfeito nunca chegou tal como o momento, e as roupas nunca foram usadas.

Eu planejei meus dias de estudo por horários, e nunca consegui seguir 100% porque uma hora eu cansava e perdia tempo pensando ou fazendo em algo irrelevante, de repente, o conteúdo estava atrasado e eu decepcionada.
Todas as noites eu planejava o dia seguinte, o dia que seria perfeito assim como todo o meu ano letivo. O dia perfeito nunca aconteceu.

Esperei pela Segunda-feira, esperei pelas 07:00 da manhã, esperei pela virada do ano, esperei por Janeiro, esperei pelas férias, esperei pela coragem, esperei pela perfeição, esperei, esperei, esperei.

Me falaram para ser boa filha, profissional, amiga, namorada, ter uma boa aparência e eu fui buscando tudo isso e esperando pelo momento onde tudo estaria certo. Onde tudo estaria perfeito.

Foi assim, planejando o amanhã há alguns minutos trás que te vi sentado aqui perto de mim, ai tudo ficou muito claro.

Você também está querendo chegar ao “momento perfeito de sua vida” não é? Me falaram dessa parada também mas pelo que vi ela já ficou para trás há uns 2 anos.

Porque eu entrei aqui esperando sair no “Amanhã” ou no “Agora vai dar certo” mas pra ser honesta aceitava até mesmo descer tão famoso "Logo ali"todos diziam que era logo ali, mas nunca chegou, faz uns 20 anos que não vejo esse trem parar.

Os planos de viagem visam sempre o próximo dia, a próxima hora, o próximo passo e de repente me ocorreu que talvez próximo passo não exista, talvez nada aconteça, talvez tudo acabe em talvez, possivelmente, e “agora vai dar certo”.

Eu sou a melhor planejadora que conheço, se tiver uma meta pode falar comigo que ajudo a montar o plano perfeito. Só que planos perfeitos são impossíveis de serem seguidos, porque não somos maquinas. Espera, não estou indo para o lado obvio da coisa, veja bem, estamos falando sobre nossa viagem, lembra? Estamos todos cegos sentados no banco desse trem enorme esperando a parada, mas ele nunca vai parar, a gente vai morrer aqui sem descer em lugar nenhum, porque somos insatisfeitos e pensamos ser melhores que a criança que fomos um dia, mas não, nós somos de longe piores.

 No fundo sabemos que nunca iremos alcançar nada disso mas ainda esperamos o amanhã que, aliás, já chegou e já foi embora também.

Hesitei te contar tudo isso, mas desce desse trem.

Melhor você descer desse trem logo, e ir andando, aproveitando a vista e as coisas que achar pelo caminho.

Não precisa ter medo de cair, se machucar e não ter assistência, dentro do trem ninguém pode te ajudar também. Certos machucados só você vai saber curar e se não souber vai aprender, eu juro.

O próximo passo que você planejou tanto precisa chegar, desce logo desse trem.

Desce, assim mesmo imperfeito, incerto. Vai logo.

Vai porque dói meu coração ver você aqui esperando a gente chegar, esse trem nunca vai chegar a lugar algum, nunca.

Tá todo mundo vendado e não sei o que fazer.

O trem está rápido eu sei mas a gente precisa tentar, eu não quero acabar aqui, nesse expresso do utópico amanhã.

Desce logo, por favor.

E a última coisa que planejei te dizer é que...
...

- Atenção todos os passageiros, a passageira de número 54 faleceu. Estamos investigando a causa. Por favor, não entrem em pânico e voltem todos a seus assentos enumerados. Sigam o plano. Se tudo certo, possivelmente, amanhã* todos chegaremos ao destino

Desejamos a todos uma boa viagem e um feliz ano novo.

Ano novo, vida nova, novos planos.




quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Resumo (Síntese, extrato, bosquejo) de um mal entendido

Esses dias eu estava conversando com uma moça e ela disse que eu não sei resumir, eu? eu não sei resumir? 

Aquela moça de olhos verdes, blusa amarela, voz grave e cabelos longos não conhece NADA sobre minha pessoa (Nascida em 1996, em Assis Chateaubriand e pesando 3,75) faz me rir, quanta audácia!

Só porque veio da Austrália, depois de ter sido expulsa de casa, trazendo em sua mala apenas um par de meias, uma calcinha rasgada e ter se sobressaído na vida, pois agora se tornou dona de uma livraria, ela pensa que sabe algo sobre mim.

Obviamente, que após eu dar 4 passos e meio, virar a esquina, tropeçar numa pedrinha, bater o dedão e me orgulhar por não xingar umas tantas gerações percebi que ela estava muito enganada.

Você nunca pode deixar que uma pessoa – Individuo, ser, ente, cidadão, criatura, ser humano- tente te definir. 

Muito ciente disso, como eu bem sou, resolvi deixar pra lá.

Fui ao mercado, fiz minhas compras e esqueci, viu só? É assim que se faz.


Aliás, não posso esquecer do cafezinho do mercado: levemente doce, um sabor amargo no final, quente mas não o suficiente para queimar, com exatas 6 gotas de adoçante e não o vidro inteiro como eu costumava fazer. Porque hoje superei e parei de comer tanto doce, depois de um exame de sangue que fiz, há três anos, que detectou alta glicemia, foi horrível.

Chorei, cortei chocolates e afins e sofri abstinência.

Todos riam e eu só sabia chorar, mas acho que não sacaram que eu chorava de verdade, choro real mesmo e não como o de novelas, choro com direito a lágrimas salgadas, se é que existem lágrimas verdadeiras que não são salgadas.

Por falar nisso, agora lembrei um par de doenças e acho melhor aproveitar e marcar um oftalmo para conversar com ele e ver essa história das lágrimas sem gosto de sal, porque não podemos confiar em tudo que o Google diz (E não encontrei nada a respeito) 

Chega dessa conversa, agora preciso ligar para uma clinica que fica na rua Minas gerais, esquina um lugar famoso.

Não sei resumir? fala sério, que vaca! 

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

4 gotas de adoçante

Desculpa ir chegando assim, é que não tem muitas outras formas e, honestamente, me deu vontade de sentar e conversar sem rodeios. Sem retocar o batom, sem insegurança, sem drama, sem troca de olhares, não quero nada disso. 

Hoje não quero mistério, não quero frio na barriga, arrepio, beijo na testa, mãos suadas. Quero apenas que sente aqui e ouça eu falar minha bobagens. 

Pode discordar, concordar, acenar com a cabeça e se quiser eu repito, uma, duas, quantas vezes forem necessárias.

 Nada de sorrir e balançar a cabeça quando não entender.

 Ando de saco cheio de gente assim.

Se não souber pergunte, se o assunto estiver entediante fale, se a música for ruim mude, se o passo estiver rápido diminuímos e se o café estiver muito amargo:

-Pega aqui esse adoçante

Andei pensando na vida e nas pessoas e percebi que todo mundo sabe tudo ultimamente, não me leve a mal, ando me sentindo meio deslocada. 

Tem aquele filme que todo mundo viu, aquela música que todo mundo ouviu, aquele livro que todo mundo leu, aquilo que todo mundo fez e onde eu estava esse tempo todo? 

Essa pergunta continua sem resposta, mas até ai tudo bem.

Na realidade, o que tem me deixado meio perdida é a falta das pessoas que não fizeram, não foram, não são. Aquelas que ainda não aprenderam, ainda não tentaram, onde está todo mundo? 

Acho que foram embora e me deixaram aqui.

Cadê aquele que ainda não formou a opinião sobre um assunto ou outro?

Quero debater algo de peito aberto.

Cansei de debates onde não existem dispostos a aprender.

Por que ninguém mais admite não saber?

 Por que não pedem pra repetir?

Por que não perguntam o nome daquele estranho que chega dizendo “te conhecer desde criança”?

Por que não prestam mais atenção?

Cansei de gente que fala sem olhar nos olhos, gente que fala “aham” pra tudo, inclusive para:

–Aquele avestruz voador que acabou de passar

-Aham!

Cansei de precisar dizer o nome do lugar pra convencer sair, de comprar aquela marca porque seria mais aceita, de evitar mudanças por causa do que pensariam.

Cansei também das selfies pra mostrar como “Minha vida anda bem melhor que a sua”

Cansei da banalidade das coisas, dos olhares mentirosos, das juras de amor que terminam no verão, das palavras sempre ouvimos e nunca acreditamos, eu cansei disso tudo.

Poxa, será que precisamos de tudo isso? 

Pouco me importa se vamos naquele barzinho da esquina ou naquele restaurante caro.

Quero mesmo que você sinta o aroma das flores antes de fotografa-las e se proponha ajudar sua avó antes de postar fotos com ela.

Mas quanta banalidade!

Quero mais aroma, sabor, cor, toque, sensibilidade.

Quero mais pessoas que curtem a própria companhia. Gente que é e não está – Porque, você lá deve saber que, existe uma diferença crucial entre ser e estar. Ser é essência-

Quero um olhar pro céu como quem indaga o que existe além de toda aquela imensidão escura.

Quero alguém que veja que não são apenas corpos, são vidas, histórias, tanta, tanta coisa.

 Quero alguém que compartilhe as vivencias e também saiba olhar para aquele senhor no ponto de ônibus e se perguntar quais foram as aventuras da vida dele.

Quero sentimento, sim, quero.

Mas só se for verdadeiro, porque mais vale um beijo frio e sincero que um caloroso abraço que mais cedo ou mais tarde vai te apunhalar.

Quero alguém que me ensine, que saiba e que não saiba também. Que admita estar errado, que saiba voltar atrás, mudar de opinião, recomeçar e até se refazer por completo.

Quero mesmo alguém pra conversar, alguém pra discutir comigo e talvez até mudar minhas ideias.

Quero mesmo um bom papo, compreende?

Mas é basicamente isso, não tem muito mais o que falar. Na verdade, até tem.

Tem muita coisa, mas agora quero ouvir você, não parece tudo uma grande ironia?

-Aham

Na realidade, é mesmo.




Metamorfose

Eu fui embora há muito tempo

Lembra a aquele meu pensamento antigo? Mudei já faz alguns anos.

Aqueles gostos? Eles também foram embora e há quem diga que meu jeito de falar agora é outro.

 Tentei incansavelmente me encontrar, olhei em cada canto dentro de mim e chequei várias vezes minha memória.

Finalmente, conclui que eu havia ido embora e não deixado nada além de algumas lembranças.

Achei estranho tudo mudar de repente. Foi um grande susto não me encontrar.

Pisei com cuidado e cuidei muito para não falar todas as bobagens que estavam em minha cabeça.

Comecei a me acostumar, novamente, com meu novo eu.

Consegui entender meus sentimentos, minhas maneiras, e fiz novas amizades.

Conheci novamente uma pancada de músicas e antes de aprender todas as letras percebi que, de repente, nada mais fazia sentido.

Procurei ver graça e, então, vi que novamente aquela  já não era mais quem eu costumava ser.

Eu havia ido embora de novo.

Mudei de opinião todas as vezes que me convenceram do contrário com bons argumentos.

Mudei de amizades porque os encontros foram menos e menos frequentes até eu frequentar outros lugares e um novo ciclo começar.

Mudei de sentimentos quando... Quando mudei meus sentimentos?

Isso não sei responder.

É como um piscar de olhos, de repente já aconteceu e você nem notou.

Fui embora várias vezes, vezes suficientes para entender que estou aqui de passagem.

Talvez um ano e não serei mais a mesma ou talvez baste algumas horas de uma boa conversa.

Sabe a melhor parte? A gente melhora muito.

Resta um pouco de saudades da inocência (porque a inocência tem lá sua grande beleza) mas a gente evolui muito.É uma constante metamorfose que só para com a morte.

Não tenho como prever minhas atitudes, não tenho como dar garantias, alguém as tem?

Num mundo de subjetividade me intriga tantas certezas, mas eu não posso dar lhe certezas, só minhas várias perguntas. Quem sabe você me acrescente algumas ou me ajude a ir embora novamente e me tornar alguém melhor, eu não sei. 

De qualquer forma como bem disse Raul Seixas “Prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Silêncio


Acho que a vida é acima de tudo apreciação.

 Apreciação de sons, toques, gostos, cores...

Afinal, o que seria de nós se não fossem esses pequenos prazeres diários?

Quando penso nisso me lembro do silêncio.

Sabe aquele silêncio absoluto? Aquele das três da manhã, quando ouvimos nossa respiração e nada mais.

Pois é, o silêncio é algo engraçado.

Ele pode acalmar e apavorar, trazer sensação de paz ou de solidão, ele pode ser vilão e... É, você já entendeu.

 Hoje fechei os olhos, respirei fundo e, de repente, lá estava ele, o silêncio.

 Novamente, aqui vem à graça do silêncio, porque ele aparece quando menos esperamos.

Se você acha que estou falando da ausência de sons está equivocado, é muito além disso.

 Me diz quantas foram as vezes que você tentou encontra-lo e não conseguiu? Nem precisa.

 Eu sei que, às vezes, a mente é muito barulhenta e o caos impera.

 É difícil encontra-lo.

Ouso dizer que, às vezes, perdemos as esperanças em acha-lo.

 É muito palpite mental pra uma pessoa que, por hora, só quer o silêncio, não é verdade?

 É algo que nunca iremos entender.

 O silêncio constrange, inclusive, é temido nos encontros românticos.

Bobagem, não acha?

 Tem coisas que só podem ser ditas no silêncio e nessa hora é a vez dele, e nenhuma palavra vai conseguir dizer o que ele tão bem faz dizendo nada e tudo ao mesmo tempo.

 O silêncio esclarece, pergunta, perturba, e nesse momento está sendo uma ótima companhia.

Porque ele também conforta por trazer paz e por trazer calma.

Na realidade, acho que o silêncio é aquilo que nos permite ouvir os sons externos com clareza, ou seja, nós somos nosso silêncio ou nosso caos, é como um estado de espirito, porque você pode encontra-lo até em meio a barulhos se estiver com a mente propicia a isso.

 E é uma sensação tão gostosa.

Tem horas que precisamos mesmo ficar sozinhos e curtir nosso paraíso ou nosso inferno e esse nosso amigo pode trazer os dois.

 Ah, é maravilhoso, não vês?

 Mas sabe, todo esse silêncio me deixou confusa.

Talvez não seja nada disso.

 Talvez o silêncio seja apenas silêncio e nada mais.

 E eu?

 Não ligo.

Porque seja lá o que for, acho que tudo aquilo que não se define, não se decifra, que não se rotula, no final, é muito mais gostoso.

Agora chega disso porque essa quietude está me trazendo uma paz danada e quero mesmo ficar curtindo isso que chamam de silêncio, independente do que seja.


Você meu rascunho

Cá estamos mais uma vez, você e eu.


 Você sabe de todos meus pensamentos, não é verdade? O fato é que não tenho vergonha contigo.

 Acho incrível sentar aqui, abrir meu coração e minha mente. Ás vezes mais coração, às vezes mente.

Desculpa quando falo coisas feias, tem dias que meu humor não está dos melhores.

Escrevo e apago por que, cá entre nós? Nem todo mundo conseguiria aguentar essas palavras como você.

Nem entenderiam, mas você entende, não é?

Eu sei que é em silencio que você passa horas ouvindo esses monólogos, mas se eu pudesse daria um jeito de te fazer falar, juro que daria.

Porque sua falta de liberdade é angustiante e ela me incomoda.

Afinal, deve ser muito duro precisar dizer coisas que não quer a qualquer momento que lhe apontarem a caneta.

Pensando em você me peguei analisando pessoas, rascunhos e pessoas que são rascunhos.

 deus me livre ser rascunho de alguém algum dia. Sério, não dá.

 É difícil essa vida de papel e não estou disposta a rascunharem em mim coisas que não quero.

 Pois você presencia coisas sem opção de escolha e se tudo der errado corre o risco de ser amassado e jogado fora.

Ouviu o que eu disse?

AMASSADO! 

Amassado sem piedade e sem nenhum respeito.

 Pior que isso é você ser um teste para um projeto futuro, onde o projeto será um sucesso e você? bem, você é só o rascunho, lembra?

Depois do projeto pronto ninguém lembrará de ti.

 É com carinho que penso em você, mas com pena também.

 Carinho porque me sinto muito abraçada por ti, você me entende de uma forma incrível e me conforta sem palavras, ou melhor, com muitas, muitas palavras.

O fato é que você me faz um bem tremendo meu rascunho, mas se eu pudesse te tirava dessa.

Te colocava em liberdade pra bem longe daqui e te escondia pra ninguém nunca mais achar e abusar de suas linhas em branco.

Você é bom demais pra ser vitima das loucuras e banalidades alheias.

Gosto muito de ti, mas preciso confessar que não quero essa vida pra mim. Ser rascunho como você é difícil demais.