Foi dissecando cada pedaço, aos poucos, de uma maneira imperceptível.
Quando alguém entra em nós nunca é fácil, se não fosse pela anestesia da paixão a gente nunca deixaria.
A paixão? ela vai te deixar cego meu amigo e você vai deixar dissecarem você. Seus sorrisos, seu modo de ser, suas coisas mais intimas e aos poucos permitirá a entrada, indolor, de algo que antes ali não estava.
Vai deixar se alojar, morar, habitar e te fazer companhia. Vai solidificar dentro de você a ponto de não conseguir imaginar ser e existir de outra forma.
Preço a pagar? Algumas vezes também vai machucar de uma maneira que você não imaginou
ser possível.
É seu inquilino, mas não sei quem abriga quem porque também será seu abrigo. Pena que talvez uma hora ele queira partir e pra isso não tem anestesia, nem por favor.
Vai sair com pressa, sem dó, rasgando tudo que encontrar
pelo caminho e a dor é mesmo física.
Aviso: você vai tentar segurar.
A dica é não segurar.
Porque vai tentar escapar de todas as formas e você vai sangrar mais do que deveria.
Você vai sentir falta do que um dia pensou ser parte sua,
mas nunca foi e ninguém nunca será.
Vai pensar que levaram tudo que existia em você, mas o tempo vai passar e você vai se curar.
Vai compreender que nunca foi mesmo parte sua e que talvez seja melhor agora, longe de toda essa bagunça, vivendo sem imprevisões dessa ordem.
A ironia é que, por mais difícil que seja de acreditar, depois de certo tempo você estará disposto
a ser dissecado novamente, não só disposto, vai querer ser dissecado novamente.
Porque é a pior e a melhor coisa que pode te acontecer.
A pior e a melhor sensação.
Você vai pagar pra ver e mais cedo ou mais tarde acontecerá de novo e de novo...
E nunca vai matar você.



