domingo, 26 de março de 2017

Dissecação

Dissecou o olhar, dissecou a pele e tirou minha roupa.

Foi dissecando cada pedaço, aos poucos, de uma maneira imperceptível.

Quando alguém entra em nós nunca é fácil, se não fosse pela anestesia da paixão a gente nunca deixaria. 

A paixão? ela vai te deixar cego meu amigo e você vai deixar dissecarem você. Seus sorrisos, seu modo de ser, suas coisas mais intimas e aos poucos permitirá a entrada, indolor, de algo que antes ali não estava. 

Vai deixar se alojar, morar, habitar e te fazer companhia. Vai solidificar dentro de você a ponto de não conseguir imaginar ser e existir de outra forma. 

Preço a pagar? Algumas vezes também vai machucar de uma maneira que você não imaginou ser possível.

É seu inquilino, mas não sei quem abriga quem porque também será seu abrigo. Pena que talvez uma hora ele queira partir e pra isso não tem anestesia, nem por favor.

Vai sair com pressa, sem dó, rasgando tudo que encontrar pelo caminho e a dor é mesmo física.

Aviso: você vai tentar segurar.

A dica é não segurar. 

Porque vai tentar escapar de todas as formas e você vai sangrar mais do que deveria.

Você vai sentir falta do que um dia pensou ser parte sua, mas nunca foi e ninguém nunca será.

Vai pensar que levaram tudo que existia em você, mas o tempo vai passar e você vai se curar. 
Vai compreender que nunca foi mesmo parte sua e que talvez seja melhor agora, longe de toda essa bagunça, vivendo sem imprevisões dessa ordem. 

A ironia é que, por mais difícil que seja de acreditar, depois de certo tempo você estará disposto a ser dissecado novamente, não só disposto, vai querer ser dissecado novamente.

Porque é a pior e a melhor coisa que pode te acontecer.

A pior e a melhor sensação.

Você vai pagar pra ver e mais cedo ou mais tarde acontecerá de novo e de novo...

E nunca vai matar você.


quinta-feira, 23 de março de 2017

Há 40 anos

-Lembra disso aqui? Era tudo mato!

Quando pisei nessa estradinha, nunca 
imaginei que por aqui ficaria todo esse tempo.

Ainda bem que seu Afonso me avisou das cobra, disse pra deixar a casa sempre bem fechada. Não é que o home tava certo? Foram umas 4 só no primeiro mês, mas graças aos protetores todos ficamo bem.

O primeiro ano foi o mais difícil, eu tava grávida quando cheguei.

Logo conheci a velha Joana e depois de dois dedo de prosa ela olho pra barriga e disse era piá, não é que a danada certou?
   
Tinha quirera no almoço e no jantar, também tinha uns frango pra matar no terreiro. Eu tinha uma dó muito grande mas era o que tinha pra come e os tadinho precisa morre.

E a coisa ficou feia  de novo com meus 24 anos e meu terceiro filho, a preocupação aumentava e diziam que a tar da escola era importante, mas vancê sabe as dificuldade da gente, não era fácil.

Os tadinho nem roupinha tinha.

Sair do sítio foi a coisa mais triste que me aconteceu, mas depois que começou esse negócio de cidade não teve jeito.

Quando cheguei aqui era cada tecnologia que a gente não conhecia, você não sabe da diferença na vida da gente.

Com Júlio, Cássio e Jairo foi uma trabalhera lascada, por deus que teve dias que pensei que não ia guenta.

Mas veja só, hoje tudo grande e forte.

Viraram uns homem bonito, trabalhado.

Sinto falta do sitiozinho, é verdade.

Naquele tempo as coisas eram mais devagar e a gente se curtia mais, se preocupava menos. 
Eu até achei graça quando meus dente caíram e comecei enruga, a gente enruga né? 

Tão engraçado.

Faz tempo que não ouço noticias da minha gente.

Construí minha casinha, minha hortinha e criei tudo meus filho.

Tão uma boniteza que só vendo.

-Cícera? Cícera? Ouviu o que eu disse?

-Desculpa vizinha, era mesmo muito mato.



sábado, 18 de março de 2017

Hoje eu protesto

Hoje protesto contra a pilha de coisas que tenho a estudar.

Hoje protesto contra você que bate palmas em frente a minha casa. Vou dizer que está aplaudindo o sol, rir e voltar a dormir.

Protesto contra gente chata e cobranças.

Também protesto contra todas as ligações e mensagens.

Hoje não existo.

Hoje vou ignorar o gato que mia pedindo carinho e também ignorar minhas obrigações. Não fazer nada o dia todo.

Vou tocar violão e gritar até o vizinho ficar surdo e protestar contra suas reclamações.

Manifesto-me contra toda boa vontade em ser alguém na vida. 

Hoje protesto.

Mas o gato mia, o vizinho reclama, as cobranças aumentam, e você não para de me incomodar.
E eu vou atender, agradar o gato, estudar como um cão, e ouvir você falar suas bobagens e sabe por que? porque protestar por aqui é assim mesmo, muito alarde pra nada.

Então, contento-me em dizer que protesto.

Vem pra rua Brasil. Bom estudo pra mim.


quinta-feira, 9 de março de 2017

Você não precisa discutir isso

Ah, eu bem me lembro desse dia!

Nunca gostei  de entrevistas de emprego - Ironia seria gostar-  mas naquele dia me sentia preparada. Eu havia pesquisado e encontrado todas as perguntas prováveis e a pior situação que poderia me ocorrer era o famoso:
“Fale sobre você” 

Então, tudo daria certo.

Até que:

"-Fale sobre as últimas tendências do mundo da moda"

Causou um rasgo em minha esperança e a tristeza invadiu meu ser. 

Eu não sei falar sobre as últimas tendências e fico realmente agradecida que existam pessoas, que não eu, qualificadas para falarem sobre isso.

No entanto, não vim discutir moda e sabe por que? Porque se tudo der certo, depois daquela infeliz entrevista (e desse texto) nunca mais precisarei dizer "últimas tendências" em minha vida. 

Então, a pergunta que tenho é:

Você está me confundindo com uma entrevistadora?

Não quero ser grosseira, já que dizem que empatia é a melhor forma de começar um diálogo, vou facilitar as coisas para você.

 Eu já me senti como entrevistada e já falei sobre assuntos que não queria e assuntos que não gostava como se fossem meus e adivinha como me sai? Me sai bem... bem mal.

Muito mal e muito pior que na entrevista citada.  

Então, quero dizer que tudo bem a gente dar vexame às vezes, mas uma hora precisamos perceber que não estamos em uma entrevista e quando estamos falando de nossas vidas de nada adianta fingir algo que não somos. Saiba que por mais interessante que alguém seja nada paga o desgosto de falar sobre –tendências – algo que não gostamos. 

Mas agora que já expus meus chifres.

Versão correta: Agora que já te mostrei minhas imperfeições, volto a perguntar onde está o entrevistador?

Você não precisa discutir isso, nem aquilo, nem aquele assunto chato que não faz brilhar seus olhos. Gentileza em excesso é algo para quem não notou que a vida é curta demais pra se perder em diálogos vazios e vãs tentativas de agradar alguém com um personagem.

Eu percebi que as pessoas, em geral, sentem uma ânsia muito grande por serem "gostadas" e transmitirem uma imagem desejável, mas isso tem sido tão doentio que já nem nos importamos mais se gostam mesmo de nós ou da imagem que criaram - e induzimos a criarem- sobre nós.

E ver você aqui falando sobre tudo que não te agrada, sobre tudo que não conhece. Ver você aqui tentando ser tudo aquilo que alguém, sabe lá quem, falou que é interessante faz eu me sentir aquela entrevistadora e se assim quer:

"-Vá para casa e descanse, qualquer coisa entraremos em contato"

Sim, foi horrível.

Mas honestamente? Nunca me interessei pelo mundo da moda e hoje sou grata por não ter conseguido aquela vaga, de verdade. Então, você quer estar aqui por que? vai por mim, não vale a pena o esforço.