Talvez essa seja uma espécie de carta de amor com um destinatário incapaz de recebê-la.
Nome próprio? Possui.
Capacidade de ler ou entender
qualquer bulhufas que sejam ditas aqui? Não.
Porém hoje ao entardecer aqui senti o
cheiro de grama cortada, a brisa que desde criança sinto em meus cabelos e ao
ver o alaranjado do céu e o barulho das cigarras, em meio a movimentação
organizada do trânsito, decidi me pronunciar.
É Cascavel, você me pega de jeito
mesmo.
Minha cidade é tipo cidade
pequena com coisas boas de cidade grande – sem a parte ruim.
Não tão pequena a ponto de não
ter um shopping mediano – Pois agora temos – e não tão grande a ponto de você
precisa mais de 30 minutos para atravessar a cidade, e atravessando a cidade de
vez em vez ela atravessou meu coração de forma que me faz aqui ficar.
Talvez para sempre? Não, mas ir agora? Agora não.
Não me tira daqui porque eu gosto
do cheiro que tem aqui.
Não me tira daqui porque eu gosto
de ver que o trânsito ficou mais complexo e eu, mesmo perdida, sei me virar
naquela rotatória gigante que tem umas tantas opções de saída – E eu sempre
acerto –
Não me tira daqui porque meu carro
sabe certinho o caminho daquele café com um jardim bonito e o caminho da casa
dos meus pais.
Não me tira daqui porque ali onde
tem aquela mansão era o campinho de futebol onde minha irmã e eu jurávamos ter
alienígenas.
Não me tira daqui porque no
finzinho da tarde tem uma brisa, que quem não é daqui chama de vento forte e eu
chamo de brisa que faz eu me sentir um pouco mais viva.
Não me tira daqui porque a terra
vermelha que suja nossos pés nos fez chamar de “pé vermelho” o povo caipira do Paraná.
O Paraná não sei se é bom, mas
meu coração foi plantado aqui, junto as araucárias que meu pai me fez desde
criança aprender “Araucária angustifolia”
Gimnosperma – A árvore do
pinhão.
Se eu sair daqui, onde vou ver o pinhão
no chão que da araucária caiu?
Se eu sair daqui onde vou ouvir
as pessoas falando como eu?
Se eu sair daqui e me
desenraizar, alguma outra terra me deixaria brotar?
Seria, eu, planta nativa ou vista como uma peste sem predador natural? Quem entende de Biologia sabe do que estou falando.
Não espero grande coisa de você
Paraná, Cascacity, não espero grandes emoções da vida noturna -Eu nem
curto isso – Não espero grandes eventos e shows– Ficar no meio de muita gente? apertada? Não, brigada. –
De você, Cascavel, espero as
árvores bonitas que olho e tento contar os anos.
Espero de você o entardecer que
me faz olhar e entender que a vida vale a pena até mesmo nos dias frios do
inverno. Inverno da vida, inverno da cidade.
Não espero nada.
Eu amo de tal modo que não espero
nada.
Sinto por você verdadeiro amor.
Não quero nada em troca.
Quando eu daqui sair eu vou
chorar. Vou chorar meus todos anos vividos aqui.
Posso estar em um lugar mais
lindo, mais tecnológico, mas não mais amado.
Não prentendo contigo estar para
sempre, Cascavel. Você me pergunta: Que tipo de amor é esse Marina? E eu respondo:
Um amor complexo que eu não consigo te explicar agora, mas algo me diz que aqui
a vida toda não posso ficar, mas por enquanto deixa estar, deixa estar.
Me deixa ficar mais um pouquinho.

