domingo, 15 de fevereiro de 2026

Profunda

Eu tinha 19 anos e ela me disse "Nossa, você é profunda, né?" 

Existem algumas memórias muito engraçadas dentro de nossas cabeças, você não acha? 

Eu tenho paixão pela memória, verdadeira paixão. Acho incrível quando consigo lembrar como a conversa começou em Filosofia e terminou nos fracos de shampoo que meu pai trazia para eu brincar quando criança. 

Sim, eu tive um pai presente que me amou e me proporcionava modos de brincar possíveis.

E os fracos de shampoo eram de hotéis onde, eventualmente, ele a trabalho ficava. Abraçava meu pai e recebia dele os presentes da viagem: Mini frascos de shampoo e um livro de colorir. Os mini frascos eram para as Barbies e mesmo que digam que não podemos lembrar de um cheiro somente ao pensar eu juro que posso quase sentir o cheiro daqueles shampoos.

Eu fui uma criança com todo pouco necessário que me era preciso. Lembro quando sujei a meia calça branca com nescau e no protesto meu pai disse "Jaime Verme, filinha" e juntos -aos meus 6 anos- odiamos o então Governador do Paraná e eu? Eu era uma criança inteligente que se deu conta de que sabia ler dentro do ônibus enquanto eu falava em voz alta os nomes das lojas por onde passávamos e uma senhora comentava:

- Ela é muito inteligente.

- Ela aprendeu a ler - Disse meu pai. 

E isso me emociona de um jeito dificil de explicar.

O conhecimento liberta e esse é um baita clichê, eu poderia citar o mito da caverna para sustentar minha tese com um pouco de conhecimento barato, mas eu só posso dizer que o conhecimento liberta e quando aliado a ingenuidade é possível ir longe, por mais contraditório que pareça.

Existem saberes e saberes e o que eu sabia era profundo suficiente para me salvar, mas também raso o bastante para que eu não morresse afogada. 

Brasil, um pais complexo.

Felizmente eu não tinha muita noção das coisas e Deus fez a bondade de me fazer olhar sempre para o próximo degrau e nunca ver o tamanho da escada por completo, talvez eu tivesse desistido. 

A maldade do mundo é pesada demais e só posso agradecer por ter permanecido tanto tempo na ignorância para tantas coisas. Meu coração sempre foi delicado e meu pai ao me entregar os shampoos sabia disso. 

Ignorância foi o que eu disse antes, não é? Sim, tal qual o conhecimento a ignorância também pode ser boa ou ruim. 

"A ignorância é uma benção" o "conhecimento liberta" e só para não perder a oportunidade "O preguiçoso trabalha dobrado" essa última não tem nada a ver com o contexto.

-Culpada.

Mas de fato toda vez que tento fazer algo de um jeito mais fácil e algo da errado eu lembro dessa frase. Não entenda errado, geralmente acontece quando tento armazenar algo e acaba caindo ou cortar uma folha sem régua e corto a folha ao meio e preciso imprimir novamente - Arg, longa demais essa explicação - 

O ponto interessante é que toda vez que isso acontece eu ouço "O preguiçoso trabalha dobrado" ecoando em minha mente, o que já me fez questionar "Eu sempre achei que era vivo - Pitty" talvez você entenda. 

É muito engraçada a forma como a mente de cada pessoa funciona e eu por diversas vezes já me peguei pensando em como as pessoas pensam:

-Tá, mas como você pensa quando quer memorizar algo? 

- Como você lembra das coisas? Você lembra por imagens? sons? 

- Você ouve uma voz dentro de sua cabeça ao pensar e se sim, essa voz é a sua própria voz? 

Me fascina o ato de pensar, até porque as pessoas praticam tão pouco dessa arte - É brincadeira. Foi brincadeira. Nem estou nesse clima hoje -

Sinceramente o pensar me fascina tal qual o memorizar.

Curiosamente devo ter sido uma criança inteligente para compensar a burrice de meus primeiros anos, afinal deles nada lembro. 

Sim, nada lembro. 

Tem pessoas que dizem ter memórias aos 2 ou 3 anos de idade.

Talvez a culpa seja de meus pais por tornarem meus primeiros anos um verdadeiro tédio, eu? Nunca saberei, mas minha mente disso nada lembra e nada sabe, no entanto, quando minha mãe cita algo do passado minha mente automáticamente "Era um dia nublado e chuvoso... Lembro de olhar as caixas e meus pais segurando o cupom fiscal e ..." Sim, eu lembro em detalhes.

O Diego, filho da Marlene... Eu não sei como, mas eu lembro.

Nomes, rostos... Um nome que puxa outros 5 de quando eu tinha 9 anos de idade e eu ...

Eu acho mesmo incrível essa coisa de lembrar das coisas, terrível as vezes, confesso, mas notei, recentemente, que situações que me geraram muita dor são apagadas. Não totalmente, mas momentos de muita dor se tornam fragmentados e perdidos.  Deus é bom, Deus é bom e é Brasileiro, e quando ela disse "Nossa, você é profunda, né?" Eu dei risada. 

Foi a Ana, irmã do Rafael.

E eu tinha 19 anos. 


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