quarta-feira, 8 de abril de 2026

Relato (6) - Quantos invernos?

 Eu preciso ser honesta, somos um tanto ingratos, não? Não é muito de mim viver a reclamar pelos cantos, mas acho que sou sensível ao calor e ao frio, portanto, em dias muito frios ou muito quentes eu sofro, mas por muito tempo fui contra o inverno e se pudesse levantar um movimento para o cancelamento do inverno eu seria a primeira pessoa a assinar. 

24 de Junho de 2025 = -1 grau em Cascacity.

-1 grau. Esse dia foi doloroso e parece que muitos invernos me foram necessários para aceitar as estações. Aceitar o calor escaldante e o frio congelante. Hoje, 08 de Abril eu senti pela primeira vez meus braços arrepiarem de frio em 2026. Hoje usei aquele salto que tem a cor do Outono e pintei as unhas com a cor que combina com meus olhos e também com as folhas secas.


Existe algo interessante sobre o qual não pensamos muito, na verdade, algumas coisas. A primeira delas é o fato da vida ser um presente e nós estarmos desejando sempre muito dela quando o melhor da vida já nos é dado: Viver. 

Viver e experienciar a vida em seus dias quentes e frios. Esse texto não é profundo e embora exista uma voz dentro de mim me dizendo: "Marina, você não precisa interpretar as coisas por seu leitor, ele consegue chegar as próprias conclusões." Eu continuo a explicar.

Não. Não estou interpretando.
A gente só está falando um pouco sobre alguma coisa, não é? E eu só disse: Não é profundo, e aliás, não tem intenção de ser. Acho engraçado eu falar coisas como "desejamos muito da vida" quando na verdade sempre fui eu a pessoa pilhada que nunca relaxou, mas verdade seja dita, sempre fui feliz fazendo coisas simples, mas também é verdade que sempre busquei algo extraordinário da vida.

Atualmente o extraoridinario é relativo -Não foi sempre?- 

Talvez você não entenda, mas vou te dar um spoiler: Você, provavelmente, está vivendo um dos melhores momentos de sua vida. O que vou dizer é bem obvio, mas estamos sempre correndo em direção ao futuro e ansiando por ele, sem perceber que para lá estar você não estará aqui e estando lá também não terá coisas que aqui tem, no agora.

Eu sou muito organizada e por conta da mudança não tinha muitos móveis, porque quis mudar muitas coisas, então coisas demoraram para ser montadas e nos primeiros dias eu pagava uma caixa, colocava no chão, mudava outra de lugar e, meu Deus, quantas caixas pesadas. Depois de 10 dias e ainda sem os móveis, pois ainda não estavam prontos,  minha vontade era de simplesmente jogar as caixas janela abaixo e eu sou paciênte, mas me peguei desesperada pensando: Eu não aguento mais essas caixas pesadas e erguer e soltar e empilhar e eu senti sentimentos péssimos, mas sabe, eu lembrei de uma coisa. 


Quando eu era criança, na quarta série, meu pai me buscou e eu estava finalizando minha quarta série. Com aquelas criancinhas eu havia estudado por muitos anos e tinha elas em meu coração. Um dia, em um final de tarde em Dezembro meu pai me buscou, eu acenei minhas mãozinhas dizendo "Eu volto visitar vocês" Eu sabia que estava indo para outro colégio, mas imaginei que iria logo ver eles novamente e nem um abraço eu dei. Eu nunca mais voltei, mas eu era criança e não sabia, eu não fazia ideia. 

Meus braços já machucados por tanto erguer as caixas e eu me peguei pensando: Quantas mudanças eu ainda farei? Eu não sei.
Respirei e parei de odiar as caixas que com tanto amor organizei em 2 noites sem dormir e escrevi em vermelho: Frágil: Copos e xícaras. 
Roupas de inverno.
Roupas de cama.
Escorredor de louça + faqueiro + outros itens. 

No final da mudança a gente tomou uma coca bem geladinha:
-Você é de Deus mesmo, moça. 

E quando me peguei sentindo raiva das caixas e do mini caos, eu lembrei que a gente nunca sabe. 
A gente nunca sabe. 

Pode vir inverno. Não sei quantos ainda terei, espero que muitos, mas prometo não reclamar dessa vez. 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Relato (5) - Baixa pace

Eu gosto de escrever sem sentir que estou tentando provar algo, sabe? Até porque nunca estive e nos últimos dias tenho pensado muito sobre o quão diferente são as pessoas e que apesar de muito empática sempre tive um pouco dificuldade em entender determinadas coisas, sendo uma delas o parar e os limites físicos.

Eu sempre peguei absolutamente pesado comigo, não em tudo, mas em muitas coisas, e pra mim ignorar a dor e seguir sempre foi não somente fundamental como básico.

Já me lesionei mais de uma vez correndo, por não respeitar meus limites. Uma dessas vezes mesmo sentindo muita dor eu lembro de não parar, simplesmente porque algo dentro de mim me dizia: É sério que você vai parar?

-Ao leitor desavisado aviso: Isso daqui não é, de forma alguma, um jeito de me vangloriar, muito pelo contrário, é um alerta - 


Quando eu estudava para o vestibular lembro que mesmo sentindo fome eu não parava para comer. Lembro de pensar: Não posso comer se ainda não entendi isso e continuar por mais muitas horas, não é com orgulho que conto isso mas eu desmaiei, umas tantas vezes. Eu era muito nova, muito nova mesmo e sim, sinto vergonha ao lembrar disso.

Se por algum motivo eu precisasse fazer algo eu simplesmente fazia. Lembro uma vez de um cachorro que havia sido atacado por um porco-espinho. Um vizinho precisava de ajuda, eu era criança e com um alicate eu ajudei a tirar os espinhos. De fato, sem muito pensar, porque precisava ser feito, mas por dentro eu estava me contorcendo de dor por aquele cachorrinho e aquela cena foi demais pra mim, mas com o alicate eu fiz o que precisava ser feito e:

-Cuidado para não quebrar o espinho. 

Não vou descrever. Foi feio.

Lembro quando li 13 livros, 13 ou 12, não me recordo bem, mas fiz isso em 1 mês porque a UFPR cobrava esses livros na prova.  Eu achei um absurdo pedirem tantos livros e sabia que poderia ler o resumo, mesmo assim, decidi ler os livros. Eu lembro do pessoal discutindo sobre quais eram mais importantes e enquanto eles discutiam eu levantei e fui pegar o primeiro livro para começar.

"Vai chorar? Precisa ser feito, Marina. Não importa como fará"

Essas coisas todas que estou citando são coisas que fazemos e se não reletirmos sempre iremos fazer. 

Eu lembro de ler aqueles livros por dias a fio e lembro de dormir poucas horas.  Comer lendo, dormir lendo e até chorar enquanto lia, porque não tinha tempo para chorar, precisa ler 40 páginas ainda naquele dia e resolver mais algumas questões.

Esse texto aqui é somente uma reflexão a respeito de como somos construídos e o quanto a não reflexão sobre nossas ações podem nos levam ao sofrimento. 

-Você toma remédio quando sente dor, Mari?

- Quase nunca, por que? Você toma? 

- Tomo Mari, eu não gosto de sentir dor.

(Julguei) 

Eu julguei! 

E depois disso meu estômago revirava -por ter julgado - enquanto eu pensava... O que eu fiz de tão errado nessa vida para pensar que eu não mereço sequer um alento? Sequer um alivio em meio ao sofrimento? Quiçá um remédio? 

- Mari, é preciso sofrer?

- O sofrimento é intrínseco a vida, não? 

- E a gente pode diminuir? 

Eu não preciso te contar tudo até porque aqui a gente vai somente até onde eu quero que vá, e você, caro leitor, apenas observa e julga, mas espero que reflita mais do que julgue, afinal, sou honesta aqui e você comigo nada compartilha, então não seja tão covarde. 

Lembro do dia que minha amiga disse: 

-Mari, preciso parar, fiz uma bolha em meu pé.

No dia anterior eu havia feito 2 bolhas. Eu não julguei ela como fraca, mas eu pensei:  

As pessoas param? 

-É obvio que as pessoas param, Marina. 

Obvio para você. 

Apesar de sentir a dor eu sempre tive comigo que precisava aguentar. 

- Se você não aguentar você é fraca, Mari?

- Sim.

-E por que??

- Por que eu deveria aguentar.

- Deveria?


Deveria? 

É interessante isso. É interessante pensar como funcionamos e como cada um de nós foi construído, eu sou grata a disciplina que tive em minha vida em tantos momentos. Sou feliz por conseguir ser forte, mas não é preciso ser forte sempre e talvez para muitos seja obvio, mas eu ainda preciso saber o que é sentar no sofá e ficar sem fazer nada um dia todo. Sentir tédio. São coisas que eu confesso, eu não sei, mas posso dizer que os extremos não são bons.

Aliás, ontem foi meu melhor tempo. Boné para me esconder. já dizia meu pai: Não é fácil essa vida de gaiteiro. 

Baixa pace. Baixa, baixa.