sexta-feira, 27 de março de 2026

Relato (2) Capis

 

27 de Março de uma noite abafada. 

Após 9 anos eu ganhei a permissão para escrever como eu bem entender.
9 anos, hahaha, e tem gente querendo que eu facilite.

As capis não estavam aqui quando cheguei, elas chegaram agora pouco, correram em frente ao carro e eu quis tirar uma foto para garantir que não estou enlouquerendo.
A verdade é que eu sempre gostei muito da natureza e tudo que Cascavel me oferece nessa Sexta a noite não me apetece mais do que estar aqui no meio do nada sentindo o cheiro de mato e ouvindo barulhos que os bichos fazem lá pelas 9 da noite.


Lá onde eu moro eu ouço muitas coisas diferentes das que costumava ouvir.
Ouço o pessoal do exército correndo e gritando "Hop hop, ... hop hop..." e também ouço os passos das pessoas que passam na rua. Tem gente que passa cantando, mas apesar de minha descrição soar muito como um lugar movimentado é na verdade um lugar calmo, lindo, cercado de árvores e parece ter saído de um livro. 
"Hop, hop... hop, hop..."

Existe uma coisa chamada espaço pessoal, sabia? É claro que você sabia, essas perguntas são retórias e existem só para deixar o texto mais fluido.

-Me deixa. 
O tal do espaço pessoal é um dos grandes problemas da minha vida.
-Te falta problemas, mocinha.
Vou explicar melhor. Não gosto muito de interações, e é doido porque acho que ninguém que me conhece pode dizer isso, mas é verdade. Talvez uma pessoa atenta perceba que respondo msgs a cada 10 dias e eu juro, está tudo bem comigo, eu sempre fui assim.
E, de fato, pode parecer confuso, pois eu posso conhecer alguém pessoalmente, conversar e a pessoa pode gostar muito de mim, mas eu nunca mais responderei.
- É uma falta de respeito, Marina.
- Será que é? Responde você então. Estou sem tempo. 
Lembro que na época do colégio nós sentavamos em roda e tocavamos violão por três dias seguidos e depois disso eu desaparecia, na biblioteca para poder ficar sozinha. Meu pesadelo era quando meus amigos me encontravam lá. 
- Bora, Mari, bora. Chega, a gente veio te salvar.
Sempre gostei dos meus amigos, mas sempre precisei estar sozinha e eu nunca consegui sobre isso falar ou esclarecer para as pessoas. 
-Sobre isso o que, Mari? 
O texto vai ficar prolixo, mas é para isso que existe essa parte aqui chamada de relatos, então, vamos lá: 
"Hop, hop... hop, hop..."
Existem as pessoas timidas, certo? Você sabia que tem gente timida que tem vontade de interagir, mas não consegue? Nem toda pessoa timida quer se isolar, sabia? Tem muita gente timida que, na verdade, fica observando as interações e quer delas participar, mas não consegue. Interessante, não? Tem gente que fala pouco mas adora estar ouvindo. Já eu sou o oposto. Tenho facilidade em interagir, as pessoas gostam muito de mim e por me comunicar bem as pessoas querem continuar a comunicação, mas eu não quero. 

- É falta de educação, Marina.
- Ah, eu já tenho 29 anos. Me deixa, vai. Não quero fazer média com ninguém. É muito raro eu querer responder msgs, por que fingir? 

O problema não são as pessoas.
- kkkkkkkkk, essa é boa, né? 
Eu tenho outra melhor que essa:
-Vou te libertar para você ser feliz.
Passarinho criado em cativeiro morre quando abre a gaiola, o tal do libertar por amor é tão cruel as vezes, né? 
Mas quem que compra essa? 

Mas a questão das pessoas? sinceramente? Não tem nada errado com as pessoas, absolutamente nada, tem pessoas interessantes, mas acredito que seja introversão a resposta para tudo isso. O lado negativo disso é que entristece pessoas mais sociáveis e acredito que eu seja uma "falsa" sociável, não no sentido de "falsidade" mas no sentido de "parecer e não ser" porque de fato eu pareço mesmo ser a pessoa que será sua melhor amiga até a morte, sempre batendo papo e sendo presente, mas infelizmente não.

Não sou a amiga grudenta, nunca serei, mas se precisar de alguém para estar contigo em um hospital por noites e noites, eu estarei lá. Se precisar de algo no meio da madrugada, eu irei, mas não me manda msg. O tom desse texto é péssimo, mas é honesto. Tem coisa muito pior, vai por mim. 

No entanto existe algo muito legal que pode acontecer e pra mim é quase um milagre.
1-O portão do espaço pessoal.
Existe esse portão que fica cadeado porque eu muito me assemelho a uma velha ranzinza, do lado de fora do portão, do lado de fora, mas se alguém tiver a senha... a senha do cadeado, é impressionante.
Fico impressionada com o fato de eu desejar responder e até mesmo ansiar por receber uma msg e pra mim isso é atípico e eu não mais sinto desconforto, porque se torna parte daquele espaço. 
É tão doido isso. 
Pra mim é um sentimento absurdo, porque não me pesa e eu poderia perder uma vida inteira, mas acho tão dificil de aceitar alguém dentro desse espaço, sabia?
Não é maldade, nem seletividade.
-Você é muito seletiva.
- Sou, mas não é isso. 
Só me incomoda demais essas interações e eu as evito. Eu me sinto invadida porque não bastando as pessoas mandarem msg elas querem resposta.
Meu Deus, pesei a mão. 
Mas veja, não tem como me levar a sério. Releve. Sou um bicho do mato mesmo, mas não tem como saber só de olhar.








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