- Volta?
Volta e sempre vai voltar.
Viver é, em grande medida, sofrer e aprender a viver apesar da dor é o que chamamos de amadurecimento.
-Amadurecimento?
Sim, amadurecimento. O amadurecer é endurecer.
- E precisa endurecer?
Endurecer não é uma necessidade, mas uma consequência.
O amadurecimento é como uma armadura. Antes do amadurecer as coisas nos atravessam.
- Essa armadura pesa?
Pesa quando ela começa a ser forjada em você, porque ela não é uma armadura que se veste.Existem armaduras feitas de vários materiais, sabia? Essa é feita de epitélio.
-Epitélio?
Epitélio é pele. Sua própria pele.
Então, se pesa? Dói absurdamente quando é em ti "costurada" pela vida, mas não pesa.
Sabe o engraçado?
- O que?
Com o tempo passa a fazer parte de você e se torna algo bom.
- Algo bom? Mas não dói?
Dói só no começo, depois vira parte de você e é daí que vem o termo "casca grossa"
- É sério?
Não. Eu inventei essa parte, mas faz sentido não faz?
- Faz.
O que quero dizer é que essa "armadura" nada mais é do que seu novo eu.
Existem vantagens, inúmeras, você se torna mais forte. Incrivelmente mais forte, mas o absurdo é que essa armadura tira a sensibilidade, sabe?
-Tipo coçar as costas?
Não exatamente. Ela não deixa você sentir o afago.
- Afago?
Carinho. Afeto. Você ainda não entende muito bem. Ela tira sua chance de tentar e ver que não é todo mundo que quer machucar a gente, sabe? E a armadura...
- É contra machucados?
Você ainda é tão nova.
- Mas é contra machucados?
A armadura protege. Protege de tudo e cumpre bem o propósito, mas deixa o coração tão longe da superfície que te tira a chance de alguém segurar ele.
- Alguém pode segurar nosso coração?
Segurar, beijar, espremer e ...
- Meu Deus.
Nem me fale.
- Eu não quero que segurem meu coração.
Você vai querer.
- E se...?
Deixa. Vale a pena.
- Mas e se... ? Eu vou morrer?
Morre o antes. Morre você antes da armadura.
- E o que acontece depois?
Eu não sei.
- Me fala!
Eu não sei mesmo!!
Sei até onde te contei, mas talvez, algo me diz, algo me diz que existe algum tipo de amor capaz de tirar essa armadura.
- Tipo uma cura?
Tipo isso.
- E você quer?
Não. Eu não sinto, afinal.
- Por causa da armadura?
Sim, por causa dela, mas quer saber um segredo?
- Qual?
O coração ainda está lá e a lembrança do que um dia foi também está.
- Lembrança de alguém?
Não. Lembrança de si mesmo.
- Tempos gloriosos?
Hahaha, tempos gloriosos.
- Quais?
O amor, meu bem. O sentir amor.
- Sentir?
Voce não deveria dormir? Eu acho que já está tarde e amanhã, amanhã será um novo dia.
- Você continua amanhã?
Não, amanhã a gente fala de outra coisa.
- Mas...?
Mas... Você não precisa se preocupar com isso.
- E você?
Nem eu. Eu tenho a armadura, lembra?
Agora vai ficar tudo bem.
*Epitélio estratificado pavimentoso queratinizado.
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