segunda-feira, 16 de março de 2026

Epitelial

...E a dor sempre volta.

- Volta? 

Volta e sempre vai voltar. 

Viver é, em grande medida, sofrer e aprender a viver apesar da dor é o que chamamos de amadurecimento. 

-Amadurecimento?

Sim, amadurecimento. O amadurecer é endurecer. 

- E precisa endurecer?

Endurecer não é uma necessidade, mas uma consequência. 

O amadurecimento é como uma armadura. Antes do amadurecer as coisas nos atravessam.

- Essa armadura pesa?

Pesa quando ela começa a ser forjada em você, porque ela não é uma armadura que se veste.Existem armaduras feitas de vários materiais, sabia?  Essa é feita de epitélio. 

-Epitélio?

Epitélio é pele. Sua própria pele. 

Então, se pesa? Dói absurdamente quando é em ti "costurada" pela vida, mas não pesa. 

Sabe o engraçado?

- O que?

Com o tempo passa a fazer parte de você e se torna algo bom.

- Algo bom? Mas não dói?

Dói só no começo, depois vira parte de você e é daí que vem o termo "casca grossa"

- É sério?

Não. Eu inventei essa parte, mas faz sentido não faz?

- Faz. 

O que quero dizer é que essa "armadura" nada mais é do que seu novo eu.

Existem vantagens, inúmeras, você se torna mais forte. Incrivelmente mais forte, mas o absurdo é que essa armadura tira a sensibilidade, sabe?

-Tipo coçar as costas?

Não exatamente. Ela não deixa você sentir o afago. 

- Afago?

Carinho. Afeto. Você ainda não entende muito bem. Ela tira sua chance de tentar e ver que não é todo mundo que quer machucar a gente, sabe? E a armadura...

- É contra machucados?

Você ainda é tão nova. 

- Mas é contra machucados?

A armadura protege. Protege de tudo e cumpre bem o propósito, mas deixa o coração tão longe da superfície que te tira a chance de alguém segurar ele. 

- Alguém pode segurar nosso coração?

Segurar, beijar, espremer e ...

- Meu Deus. 

Nem me fale. 

- Eu não quero que segurem meu coração.

Você vai querer. 

- E se...?

Deixa. Vale a pena. 

- Mas e se... ? Eu vou morrer?

Morre o antes. Morre você antes da armadura. 

- E o que acontece depois?

Eu não sei.

- Me fala!

Eu não sei mesmo!!

Sei até onde te contei, mas talvez, algo me diz, algo me diz que existe algum tipo de amor capaz de tirar essa armadura. 

- Tipo uma cura?

Tipo isso. 

-  E você quer?

Não. Eu não sinto, afinal. 

- Por causa da armadura?

Sim, por causa dela, mas quer saber um segredo?

- Qual? 

O coração ainda está lá e a lembrança do que um dia foi também está. 

- Lembrança de alguém? 

Não. Lembrança de si mesmo.

- Tempos gloriosos? 

Hahaha, tempos gloriosos. 

- Quais?

O amor, meu bem. O sentir amor.

- Sentir?

Voce não deveria dormir? Eu acho que já está tarde e amanhã, amanhã será um novo dia.

- Você continua amanhã?

Não, amanhã a gente fala de outra coisa.

- Mas...?

Mas... Você não precisa se preocupar com isso. 

- E você?

Nem eu. Eu tenho a armadura, lembra? 

Agora vai ficar tudo bem.



*Epitélio estratificado pavimentoso queratinizado.

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