domingo, 29 de março de 2026

Epitáfio

E no esvaziar dos pulmões, palavras bonitas ditas -a quem?- alguns ritos, formalidades e jaz embaixo da terra alguém que um dia foi. 
No esvaziar do pulmões e no apagar dos olhos, será que o coração aperta? Ou já cansado somente aceita o eminente?
Após dores e dissabores: Lápide. Chão com terra ainda fofa e palavras em uma pedra fria escritas - quais? e por quem escolhidas-?
E o que restava ainda a dizer? o "amo você" é tão sublime que poderia explicar muito do que descabidas linhas não seriam capazes pois, se sincero, após "eu te amo" não há nada mais a ser dito e o que passa disso é um luxo e não mais necessário.
Eu amo você seria suficiente - Por que choras?-
Quem se vai muito pensa em quem ficou e em última instância no apagar da vida: Lembre-se do amor.
Palavras não ditas, momentos não vividos, dores não perdoadas, feridas ainda abertas, planos incompletos, vaidades, vaidades, vaidades que você só entende quando o brilho dos olhos não se faz mais presente e dele a vida já se esvaiu.
O toque das mãos quentes de quem aqui já não mais está. 
É lápide o nome, certo? Pedra fria, perpétua? tal como a morte? Fria. Penso, então, no escrever e no quanto eu ainda diria antes de partir. 
Eu compreendo o propósito do epitáfio, eu bem sei, afinal, não sou eu a que sempre tentou causar um pouquinho de reflexão? Mas não consigo imaginar caber naquela pedra tudo que é digno a alguém.
Talvez o ideal seria: Puxa essa lápide e pega a carta que embaixo dela está, se, se ela não estiver mais aqui você chegou tarde demais ou é apenas um curioso ao qual essa história não deveria interessar: Vá embora. 
(Frases amargas a quem não merece desafeto, mas já é tarde demais)
Pelo calejar dos dedos de mentes brilhantes fizeram-se textos extraordinários que já cravados na história estão. Minha incapacidade é tamanha que nem mesmo o café consigo definir com precisão, e ainda assim escrevo. Petulância? De forma alguma. A vida é brutal e brutalmente linda, em mim ela bate e de mim saem palavras macias e eu queria ser espinho, mas para ser espinho precisa afiar-se mais e eu fujo de tudo que me amola.

O espinho é precisão, penetração e eu olho muito para as paredes e para o teto, sempre a ponderar. 

Eu muito e sobre muito escrevo, nunca me comprometi em fazer algo realmente de boa qualidade, mas prometi colocar meu coração e sinceridade em cada vírgula do que escrevesse e disso, indubitavelmente, fiz e faço, mas se me desse uma lápide? e um epitáfio eu precisasse escrever? Me faltariam palavras, ferramentas mentais, estômago, firmeza e a apátia necessária para que eu escrevesse meia duzia de palavras e fingisse serem elas justas e suficientes. Soluçar meu coração para fora do peito não ajudaria em nada, afinal, e eu sou fraca, fraca demais.

Epitáfios não escreverei, mas de maneira honesta estarei aqui, não por arrogância, mas pela necessidade de exprimir a vida, pois sei que as últimas palavras escritas não serão minhas, portanto, não revogue meu direito de entre a letra maiúscula e o ponto final falar e nada mais peço. 


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