terça-feira, 24 de janeiro de 2017

4 gotas de adoçante

Desculpa ir chegando assim, é que não tem muitas outras formas e, honestamente, me deu vontade de sentar e conversar sem rodeios. Sem retocar o batom, sem insegurança, sem drama, sem troca de olhares, não quero nada disso. 

Hoje não quero mistério, não quero frio na barriga, arrepio, beijo na testa, mãos suadas. Quero apenas que sente aqui e ouça eu falar minha bobagens. 

Pode discordar, concordar, acenar com a cabeça e se quiser eu repito, uma, duas, quantas vezes forem necessárias.

 Nada de sorrir e balançar a cabeça quando não entender.

 Ando de saco cheio de gente assim.

Se não souber pergunte, se o assunto estiver entediante fale, se a música for ruim mude, se o passo estiver rápido diminuímos e se o café estiver muito amargo:

-Pega aqui esse adoçante

Andei pensando na vida e nas pessoas e percebi que todo mundo sabe tudo ultimamente, não me leve a mal, ando me sentindo meio deslocada. 

Tem aquele filme que todo mundo viu, aquela música que todo mundo ouviu, aquele livro que todo mundo leu, aquilo que todo mundo fez e onde eu estava esse tempo todo? 

Essa pergunta continua sem resposta, mas até ai tudo bem.

Na realidade, o que tem me deixado meio perdida é a falta das pessoas que não fizeram, não foram, não são. Aquelas que ainda não aprenderam, ainda não tentaram, onde está todo mundo? 

Acho que foram embora e me deixaram aqui.

Cadê aquele que ainda não formou a opinião sobre um assunto ou outro?

Quero debater algo de peito aberto.

Cansei de debates onde não existem dispostos a aprender.

Por que ninguém mais admite não saber?

 Por que não pedem pra repetir?

Por que não perguntam o nome daquele estranho que chega dizendo “te conhecer desde criança”?

Por que não prestam mais atenção?

Cansei de gente que fala sem olhar nos olhos, gente que fala “aham” pra tudo, inclusive para:

–Aquele avestruz voador que acabou de passar

-Aham!

Cansei de precisar dizer o nome do lugar pra convencer sair, de comprar aquela marca porque seria mais aceita, de evitar mudanças por causa do que pensariam.

Cansei também das selfies pra mostrar como “Minha vida anda bem melhor que a sua”

Cansei da banalidade das coisas, dos olhares mentirosos, das juras de amor que terminam no verão, das palavras sempre ouvimos e nunca acreditamos, eu cansei disso tudo.

Poxa, será que precisamos de tudo isso? 

Pouco me importa se vamos naquele barzinho da esquina ou naquele restaurante caro.

Quero mesmo que você sinta o aroma das flores antes de fotografa-las e se proponha ajudar sua avó antes de postar fotos com ela.

Mas quanta banalidade!

Quero mais aroma, sabor, cor, toque, sensibilidade.

Quero mais pessoas que curtem a própria companhia. Gente que é e não está – Porque, você lá deve saber que, existe uma diferença crucial entre ser e estar. Ser é essência-

Quero um olhar pro céu como quem indaga o que existe além de toda aquela imensidão escura.

Quero alguém que veja que não são apenas corpos, são vidas, histórias, tanta, tanta coisa.

 Quero alguém que compartilhe as vivencias e também saiba olhar para aquele senhor no ponto de ônibus e se perguntar quais foram as aventuras da vida dele.

Quero sentimento, sim, quero.

Mas só se for verdadeiro, porque mais vale um beijo frio e sincero que um caloroso abraço que mais cedo ou mais tarde vai te apunhalar.

Quero alguém que me ensine, que saiba e que não saiba também. Que admita estar errado, que saiba voltar atrás, mudar de opinião, recomeçar e até se refazer por completo.

Quero mesmo alguém pra conversar, alguém pra discutir comigo e talvez até mudar minhas ideias.

Quero mesmo um bom papo, compreende?

Mas é basicamente isso, não tem muito mais o que falar. Na verdade, até tem.

Tem muita coisa, mas agora quero ouvir você, não parece tudo uma grande ironia?

-Aham

Na realidade, é mesmo.




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