Eu sempre peguei absolutamente pesado comigo, não em tudo, mas em muitas coisas, e pra mim ignorar a dor e seguir sempre foi não somente fundamental como básico.
Já me lesionei mais de uma vez correndo, por não respeitar meus limites. Uma dessas vezes mesmo sentindo muita dor eu lembro de não parar, simplesmente porque algo dentro de mim me dizia: É sério que você vai parar?
-Ao leitor desavisado aviso: Isso daqui não é, de forma alguma, um jeito de me vangloriar, muito pelo contrário, é um alerta -
Quando eu estudava para o vestibular lembro que mesmo sentindo fome eu não parava para comer. Lembro de pensar: Não posso comer se ainda não entendi isso e continuar por mais muitas horas, não é com orgulho que conto isso mas eu desmaiei, umas tantas vezes. Eu era muito nova, muito nova mesmo e sim, sinto vergonha ao lembrar disso.
Se por algum motivo eu precisasse fazer algo eu simplesmente fazia. Lembro uma vez de um cachorro que havia sido atacado por um porco-espinho. Um vizinho precisava de ajuda, eu era criança e com um alicate eu ajudei a tirar os espinhos. De fato, sem muito pensar, porque precisava ser feito, mas por dentro eu estava me contorcendo de dor por aquele cachorrinho e aquela cena foi demais pra mim, mas com o alicate eu fiz o que precisava ser feito e:
-Cuidado para não quebrar o espinho.
Não vou descrever. Foi feio.
Lembro quando li 13 livros, 13 ou 12, não me recordo bem, mas fiz isso em 1 mês porque a UFPR cobrava esses livros na prova. Eu achei um absurdo pedirem tantos livros e sabia que poderia ler o resumo, mesmo assim, decidi ler os livros. Eu lembro do pessoal discutindo sobre quais eram mais importantes e enquanto eles discutiam eu levantei e fui pegar o primeiro livro para começar.
"Vai chorar? Precisa ser feito, Marina. Não importa como fará"
Essas coisas todas que estou citando são coisas que fazemos e se não reletirmos sempre iremos fazer.
Eu lembro de ler aqueles livros por dias a fio e lembro de dormir poucas horas. Comer lendo, dormir lendo e até chorar enquanto lia, porque não tinha tempo para chorar, precisa ler 40 páginas ainda naquele dia e resolver mais algumas questões.
Esse texto aqui é somente uma reflexão a respeito de como somos construídos e o quanto a não reflexão sobre nossas ações podem nos levam ao sofrimento.
-Você toma remédio quando sente dor, Mari?
- Quase nunca, por que? Você toma?
- Tomo Mari, eu não gosto de sentir dor.
(Julguei)
Eu julguei!
E depois disso meu estômago revirava -por ter julgado - enquanto eu pensava... O que eu fiz de tão errado nessa vida para pensar que eu não mereço sequer um alento? Sequer um alivio em meio ao sofrimento? Quiçá um remédio?
- Mari, é preciso sofrer?
- O sofrimento é intrínseco a vida, não?
- E a gente pode diminuir?
Eu não preciso te contar tudo até porque aqui a gente vai somente até onde eu quero que vá, e você, caro leitor, apenas observa e julga, mas espero que reflita mais do que julgue, afinal, sou honesta aqui e você comigo nada compartilha, então não seja tão covarde.
Lembro do dia que minha amiga disse:
-Mari, preciso parar, fiz uma bolha em meu pé.
No dia anterior eu havia feito 2 bolhas. Eu não julguei ela como fraca, mas eu pensei:
As pessoas param?
-É obvio que as pessoas param, Marina.
Obvio para você.
Apesar de sentir a dor eu sempre tive comigo que precisava aguentar.
- Se você não aguentar você é fraca, Mari?
- Sim.
-E por que??
- Por que eu deveria aguentar.
- Deveria?
Deveria?
É interessante isso. É interessante pensar como funcionamos e como cada um de nós foi construído, eu sou grata a disciplina que tive em minha vida em tantos momentos. Sou feliz por conseguir ser forte, mas não é preciso ser forte sempre e talvez para muitos seja obvio, mas eu ainda preciso saber o que é sentar no sofá e ficar sem fazer nada um dia todo. Sentir tédio. São coisas que eu confesso, eu não sei, mas posso dizer que os extremos não são bons.
Aliás, ontem foi meu melhor tempo. Boné para me esconder. já dizia meu pai: Não é fácil essa vida de gaiteiro.
Baixa pace. Baixa, baixa.
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