quinta-feira, 23 de março de 2017

Há 40 anos

-Lembra disso aqui? Era tudo mato!

Quando pisei nessa estradinha, nunca 
imaginei que por aqui ficaria todo esse tempo.

Ainda bem que seu Afonso me avisou das cobra, disse pra deixar a casa sempre bem fechada. Não é que o home tava certo? Foram umas 4 só no primeiro mês, mas graças aos protetores todos ficamo bem.

O primeiro ano foi o mais difícil, eu tava grávida quando cheguei.

Logo conheci a velha Joana e depois de dois dedo de prosa ela olho pra barriga e disse era piá, não é que a danada certou?
   
Tinha quirera no almoço e no jantar, também tinha uns frango pra matar no terreiro. Eu tinha uma dó muito grande mas era o que tinha pra come e os tadinho precisa morre.

E a coisa ficou feia  de novo com meus 24 anos e meu terceiro filho, a preocupação aumentava e diziam que a tar da escola era importante, mas vancê sabe as dificuldade da gente, não era fácil.

Os tadinho nem roupinha tinha.

Sair do sítio foi a coisa mais triste que me aconteceu, mas depois que começou esse negócio de cidade não teve jeito.

Quando cheguei aqui era cada tecnologia que a gente não conhecia, você não sabe da diferença na vida da gente.

Com Júlio, Cássio e Jairo foi uma trabalhera lascada, por deus que teve dias que pensei que não ia guenta.

Mas veja só, hoje tudo grande e forte.

Viraram uns homem bonito, trabalhado.

Sinto falta do sitiozinho, é verdade.

Naquele tempo as coisas eram mais devagar e a gente se curtia mais, se preocupava menos. 
Eu até achei graça quando meus dente caíram e comecei enruga, a gente enruga né? 

Tão engraçado.

Faz tempo que não ouço noticias da minha gente.

Construí minha casinha, minha hortinha e criei tudo meus filho.

Tão uma boniteza que só vendo.

-Cícera? Cícera? Ouviu o que eu disse?

-Desculpa vizinha, era mesmo muito mato.



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